segunda-feira, 30 de abril de 2007

De pernas bem fechadas

Não reescrevi a história porque a Denyse Godoy fez direitinho.

Por que achei interessante? Porque, se fosse um filme, além de ter a cara do De Olhos Bem Fechados (do Stanley Kubrick, mas inspirado em Uma Novela Americana, livro com algo-assim no título), tocaria em diversos pontos humanos da comunidade, da sociedade e suas verdades hipocrenças. Um culto sagrado, um discurso que faz sentido em alguns pontos, mas que falha feio em outros, estabelecendo uma grande contradição, uma bela história. Há também influência da política, que retorna aos tempos de Reino-no-papo-do-papado
quando os bispos tinham poder. É, já estamos mesmo numa Inquisição bucheana.

Confiram.

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Lá estão as meninas nos seus vestidos de princesa, com direito a arranjo no cabelo e luvas três-quartos. Elas não conseguem disfarçar a ansiedade. Chega a hora da valsa com os pais, e em torno da pista de dança se colocam os outros membros da família, em traje de gala, emocionados.

Tudo muito parecido com um festa de debutantes de antigamente, não fosse um detalhe: no centro do salão, há uma grande cruz de madeira. Aos pés dela, uma a uma, em fila, as garotas lançam rosas brancas —e, nesse momento, prometem a Deus manterem-se virgens até o casamento.

Em troca, os pais, diante dos convidados, também assumem o compromisso de levar uma vida íntegra e honesta em todos os sentidos —especialmente no que diz respeito ao seu relacionamento com as mulheres.

A cerimônia, chamada "baile da pureza", virou moda entre os cristãos conservadores dos EUA. Foi criada em 1998 pelo ministério religioso Generations of Light (Gerações de Luz); estima-se que, em 2006, tenham sido realizados cerca de 1.500 rituais do tipo em 48 Estados do país.

Pressão sexual

"Percebemos que as garotas atualmente se sentem pressionadas demais em relação à atividade sexual, o que leva à depressão e também está na raiz de tentativas de suicídio", diz Randy Wilson, fundador do ministério. "No nosso entendimento, fortalecer o vínculo entre pai e filha ajuda a definir a identidade das meninas, para que elas saibam o seu valor e sejam respeitadas. Ademais, devemos fazer o que for necessário para apoiar a família, base da sociedade."

Wilson vive com a mulher, Linda, e sete filhos --três mulheres e quatro homens-- em Colorado Springs, Estado do Colorado. Para os interessados em organizar uma celebração como essa, a Generations of Light vende pela internet, por US$ 90, um kit com todas as informações necessárias.

Mas o "baile da pureza" representa apenas uma das faces do movimento pró-abstinência sexual nos EUA. Além de grupos religiosos, dos quais o True Love Waits (O Amor Verdadeiro Espera) e o Silver Ring Thing (Anel de Prata) são outros exemplos, também defendem essa causa organizações laicas como a Pure Love Alliance (Aliança do Amor Puro).

"Deixar para fazer sexo depois do casamento, em uma cultura que prega o contrário, significa a verdadeira liberdade. Eis aí a nossa mensagem", afirma Leslee Unruh, diretora da Abstinence Clearinghouse (Câmara pela Abstinência). Mesmo quem já perdeu a virgindade pode se arrepender e decidir só voltar a ter relações após o matrimônio, diz ela.

E como convencer os jovens de que esse é o melhor jeito para eles viverem a sua sexualidade? "Bem, dizendo que, dessa maneira, evita-se a decepção, traumas emocionais difíceis de serem superados posteriormente e ainda a gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis", conta Leslee.

Faz parte da estratégia frisar que a camisinha tem um índice de falha e mostrar, em palestras e panfletos, fotos de lesões cutâneas causadas por DSTs.

Escritório na Casa Branca

Assim, do terreno da fé passa-se ao do planejamento familiar e ao da saúde pública.
O governo de George W. Bush tem sido bastante criticado por privilegiar, na destinação de recursos públicos, as iniciativas que partem de grupos religiosos. Um processo em tramitação na Suprema Corte denuncia que, ao privilegiar grupos religiosos na distribuição de verbas, o governo está acabando com a separação entre Igreja e Estado.

"Se você é viciado em álcool e um programa religioso pode ajudá-lo a parar, devemos dizer aleluia e agradecer em nível federal", disse Bush um ano atrás, ao defender mais fundos para as entidades do gênero --o que agrada em cheio a nova direita americana, sua principal base eleitoral.

A Casa Branca de Bush mantém um Escritório de Iniciativas Baseadas na Fé e Comunitárias para tratar dos projetos, para os quais foram reservados US$ 323 milhões em 2007, montante 37% superior ao do ano passado. Há escritórios semelhantes em departamentos (ministérios) como o da Educação e o da Saúde.

A campanha pela abstinência sexual está entre as prioridades de Bush e, por isso, tem orçamento próprio: US$ 191 milhões neste ano, contra US$ 163 milhões em 2006.

"Como Deus deseja"

Em janeiro deste ano, o contador Oscar Kornblat, que mora em Colorado Springs, participou do "baile da pureza" com sua filha mais velha, Hannah, 15 anos. Ele queria enfatizar o ideal de manter coração e mente limpos, "como Deus deseja".

"E tem um outro motivo. Minhas duas filhas são adotadas. Suas mães as tiveram solteiras, com 17 anos, e elas por sua vez também eram filhas de mães solteiras. Isso vai parar nesta geração", enuncia, firme.

DENYSE GODOY, da Folha de S.Paulo, em Nova York
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sexta-feira, 27 de abril de 2007

A carniça mediática

O bafafá já passou, mas vale a pena lembrar. A qualquer momento um feirante anuncia.

No episódio dos quinze marinheiros britânicos detidos pelo Irã, cogitou-se fortemente a idéia de que as histórias de cada personagem fossem holofoteadas com algumas páginas biográfica-ficcionais. Eles venderiam suas histórias aos curiosos de plantão.


Digo, quer dizer, como se diz...

Tudo se vende, amigo, tudo se vende!... Todos os grandes portais da internet têm alguma porcaria de link falando de celebridade. Caras e Contigo! vendem pra caralho. Porra, que merda é o ser humano.

Talvez a história fosse bem explorada e poderia render um bom passatempo. Existem biografias muito bem escritas. Mas o alarde e a urgência que se trata do tema deixa claro que o interesse está mais para converter o ápice mediático em lucro, que contar a história em si.

É que os quinze são "heróis", num teatrinho com o qual o
Mahmoud Ahmadinejad quis provar sua seriedade. Mas, teremos uma história do Iraque? É logo ao lado.

Não. Os grandes já aprenderam uma vez com o erro do Vietnã. A lição: comunicação.

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quinta-feira, 26 de abril de 2007

Merecia o Oscar - II

Sinopse: Mark Villanueva, 17, é órfão trágico de pai e mãe. Mas o garoto é forte e segue sonhando. Até que sua vida se transforma ao se apaixonar por uma garota de 14 anos. Os pais dela, comovidos com a história, convidam o genro a morar consigo. Um ano depois, os hormônios de Mark levam-no a violentar sua namorada, e tudo acaba num julgamento, onde a família tem uma grande surpresa.

Por que essa história é digna da série Merecia o Oscar? Em primeiro-terceiro, porque é real. Em segundo, porque a encenação durou dois anos. Em terceiro-primeiro, porque o personagem Mark é interpretado pela "atriz" Lorelei Corpuz, de 30 anos. Não deve ser fácil incorporar alguém do sexo oposto, com 13 anos a menos, considerando a faixa etária de cada. Também não deve ter sido muito fácil para a vítima, 14, ter suportado 2 anos de namoro em carícias unilaterais. "A vítima afirmou que Corpuz a molestou, agrediu e mordeu, mas disse que a mulher nunca mostrou suas partes íntimas durante os atos."

(Já na semana passada postei sobre a indiana que fingiu uma gravidez por nove meses para poder roubar um bebê da maternidade. Agora, essa história de amor às cegas.)

A farsa acabou quando um policial parou o carro de "Mark" para investigar se era roubado. O tira reconheceu o rosto, pois ele própria já havia detido Corpuz, já julgada outrora por molestar uma criança.

A ninfeta estava no carro. Imagine a cara. Curiosamente a data da descoberta fora 1º de abril.

Como diria Shakespeare, a vida é um palco. E você, será indicado(a) por qual papel?
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Sobre mendigos e lobos

Eric Montañez, de 21, servia comida a cerca de 30 mendigos reunidos num parque de Orlando, Flórida. Ele pertence ao grupo Alimentos, não bombas, que se dedica a oferecer comida às pessoas carentes.

Foi preso por isso.

O que ele fez é considerado crime. A criação da lei atendeu às reclamações de administradores municipais e de vizinhos dos parques, que reclamavam da sujeira deixada pela distribuição de comida.

Multar quem oferece comida é a forma mais inteligente de corrigir o problema? Nada que uma boca-a-boca do caridoso com os mendigos não resolvesse. "Pega a embalagem, joga no lixo. Ei, afinal, está e sua casa..."

Pausa. Já estou passando por cima do problema "existir mendigos", já sedado com a insensibilidade e descaso urbanos. É capaz de daqui a pouco eu dizer "que bom que há lixo no chão, pois assim gera-se emprego"...

Na rua de minha casa tem feira toda quinta. A prefeitura não limpa direito, fica tudo com restos de frutas por uns dois dias no asfalto (e isso porque tem árvores logo na praça ao lado, que bem poderiam gostar de um adubozinho), até que o sol seque ou que a chuva os leve para a próxima enchente da esquina.

Montañez foi libertado após pagar uma fiança de US$ 250. Se for condenado, ele pode ter de pagar US$ 500 de multa e ficar até 60 dias na prisão.

São fatos que não cabem, não cabem.
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quarta-feira, 25 de abril de 2007

Monoxidade

Biu reinfla quando pisa na calçada, dum ônibus saído. Do abafo diochído humano sente alívio, entretanto o pulmão se nega a estufar: a estufa.

A perua atravessou o farol desmembrando parafusos e baforando preto. Biu, roxo, segura a vontade. E tosse.

Espera pela baldeação, e um balde queda d'água fria paraísa o horizonte cinza bégeo. Motos sem matos, carros e escarros, buzinas de business, a luz se difusa num turvo degradê. Pedestres em esfumato.

Mas também é a lente. Incomodada, irrita sua fôrma, fôrmas que saltam o ombro do baixinho da frente que lê notícias da imprensa em pressa. Biu acompanha.

"Respirar o ar poluído de grandes cidades, pode ser mais perigoso, para a saúde do que ser ex, posto a altos níveis de radiação, de acordo-"

"-quem opíta por viver, na zona de ex... clusão, ao redor de Che-cherno... — chernóbil — pode sofrer menos, probrema de saúde que numa cidade, grande-"

O via do baixote vem, leva. Biu confere se um dos engarrafados logo atrás é o seu. Mas, nenhum. Vai se informar sobre a guerra no ombro de outro.

"Buscando armas nucleares, ... Búch! errou na invasão..."

Um caminhão sobe a calçada para entrega rápida no mercadinho. Mesmo, tanto que a carroça fica ligada. O monochído intumesce e alcança os broncos pulmonares de Biu, que não entende dos broncos, nem carbonos que não sejam de papel, mas entende o que é na veia, e se afasta, lentamente inútil, porque o gás o alcança, abraça como sucuri, só que esmagando por dentro sem ossos. Uma dona brava diz:

Mai esse caminhoneiro não vê que tá sufocando quem tá no ponto?
— É, fica difícil respirá.
Mai, cê sabe? é por causa disso tudo que o mundo tá se quentando!
— É o esquentamento grobal, tá nas notícia.

Se foi monochído nas cachola ou falta nas escola, Biu se embananou no raciocínio, acreditou nos discursos dos presidentes, temeu ser atacado, e por um instante alcançou a camada de ozônio.

— Sabe, atacaro o Iraque porque arma nucrear é danosa. Imagina, logo logo ele ataca nóis também, que deu no jornal que poluição é mais periguenta ainda.
— Bem que tinha mesmo! Ói! Ói o pretume que sai da cara quando passa o lenço. Tamo tudo é sujo com essa fumacêra!
— Se fosse petróleo, aí que atacavam mesmo! — se meteu um outro senhor. Mas a conversa acabou, que a vã da véia chegou, e com o metido Biu não foi.

O ponto de ônibus anunciava um feto morto, com advertência dos riscos da nicotina. O busão de Biu chegava enquanto a avenida piscava que nem árvore de Natal.
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